Eu fico com o coração batendo tão forte para o futuro, como se ele fosse uma paixão dessas incertas. Essas berçadas, essas que a gente planeja, planeja, e quando pensa ou sonha que vai ou está dando certo, sorri e se empolga. Eu talvez seja tão apaixonada pelo futuro que eu almejo porque ele é incerto, vai ver, como aquele rapaz bonitinho que a gente paquera, pouco a pouco, e ele cai na nossa graça. E você meio que se esquece do presente, o vive mais alhures.
sábado, 4 de diciembre de 2010
viernes, 29 de octubre de 2010
Murs.
domingo, 12 de septiembre de 2010
O amor, Pierre Levy, e, um dia, quem sabe, todos nós.
Nize Pellanda: O amor, [Lévy suspira e os entrevistadores riem] banido da ciência clássica, como atrapalhador do conhecimento, volta na sua obra, e também na de outros cientistas complexos, como categoria cognitiva fundamental. O que você poderia dizer sobre isso?
Pierre Lévy: Nize, agradeço muito por me fazer essa pergunta [risos]. Mais uma vez, temos de recorrer à experiência pessoal. É impossível compreender realmente alguém, um ser humano que está à nossa frente, sem amá-lo. Quando amamos alguém, tentamos nos colocar em seu lugar, entender seu interior, aproximamos nosso coração do coração dele e o entendemos. Há uma profunda relação entre conhecimento e amor. Entre duas pessoas, é evidente. Mas, mesmo em termos científicos, quando vemos a forma pela qual os entomologistas estudam formigas ou abelhas, se eles não as amassem, será que poderiam passar anos e anos estudando-as? Quando queremos conhecer uma coisa é porque a amamos. A relação entre conhecimento e amor é muito profunda. Eu diria também que, no plano filosófico, é algo que iria requerer longas explanações, mas, no fundo, o que é pensamento? Deleuze dizia que há uma forte relação entre pensamento e aprendizado. O pensamento não é o reconhecimento de algo que já sabemos. Temos um conceito, vemos uma coisa e, aí, tal coisa é tal conceito. Não é nada disso. É algo que antes não sabemos, que antes é caótico e incerto e que, de repente, nós produzimos. Então, produzimos um conceito, uma representação, que emerge juntamente com a percepção que temos de alguma coisa. E, por isso, temos de nos transformar. Temos, talvez, de abandonar velhos conceitos para produzir algo novo. Somos obrigados a nos tornar outra coisa. O que é aprender? É abandonar velhos reflexos, abandonar os preconceitos e penetrar em um conhecimento diferente. E isso é doloroso. É aceitar se transformar, aceitar ir em direção à alteridade. Aprender é isso. Pensar é isso. Ir em direção de outra coisa. É transformar-se, não é? Porque ser, pensar, aprender, tornar-se é a mesma coisa, não é? Somos o que sabemos, o que experimentamos. Nós nos tornamos o que aprendemos. É o movimento de ir em direção ao outro, à alteridade. O que é o amor? É ir em direção ao outro. É aproximar-se do outro, sair de si mesmo. Se quisermos ser, estando realmente vivos, temos de sair de nós mesmos ou acolher o mundo em nós, acolher o outro em nós. O amor é a mesma coisa. É ir em direção ao outro ou acolher o outro em si, tornar-se o outro. Para mim, não somente há uma identificação entre conhecimento e amor, mas, também, a identificação entre o conhecimento, o amor e a existência, a mais intensa e viva.
O amor, Pierre Levy, e, um dia, quem sabe, todos nós.
Nize Pellanda: O amor, [Lévy suspira e os entrevistadores riem] banido da ciência clássica, como atrapalhador do conhecimento, volta na sua obra, e também na de outros cientistas complexos, como categoria cognitiva fundamental. O que você poderia dizer sobre isso?
Pierre Lévy: Nize, agradeço muito por me fazer essa pergunta [risos]. Mais uma vez, temos de recorrer à experiência pessoal. É impossível compreender realmente alguém, um ser humano que está à nossa frente, sem amá-lo. Quando amamos alguém, tentamos nos colocar em seu lugar, entender seu interior, aproximamos nosso coração do coração dele e o entendemos. Há uma profunda relação entre conhecimento e amor. Entre duas pessoas, é evidente. Mas, mesmo em termos científicos, quando vemos a forma pela qual os entomologistas estudam formigas ou abelhas, se eles não as amassem, será que poderiam passar anos e anos estudando-as? Quando queremos conhecer uma coisa é porque a amamos. A relação entre conhecimento e amor é muito profunda. Eu diria também que, no plano filosófico, é algo que iria requerer longas explanações, mas, no fundo, o que é pensamento? Deleuze dizia que há uma forte relação entre pensamento e aprendizado. O pensamento não é o reconhecimento de algo que já sabemos. Temos um conceito, vemos uma coisa e, aí, tal coisa é tal conceito. Não é nada disso. É algo que antes não sabemos, que antes é caótico e incerto e que, de repente, nós produzimos. Então, produzimos um conceito, uma representação, que emerge juntamente com a percepção que temos de alguma coisa. E, por isso, temos de nos transformar. Temos, talvez, de abandonar velhos conceitos para produzir algo novo. Somos obrigados a nos tornar outra coisa. O que é aprender? É abandonar velhos reflexos, abandonar os preconceitos e penetrar em um conhecimento diferente. E isso é doloroso. É aceitar se transformar, aceitar ir em direção à alteridade. Aprender é isso. Pensar é isso. Ir em direção de outra coisa. É transformar-se, não é? Porque ser, pensar, aprender, tornar-se é a mesma coisa, não é? Somos o que sabemos, o que experimentamos. Nós nos tornamos o que aprendemos. É o movimento de ir em direção ao outro, à alteridade. O que é o amor? É ir em direção ao outro. É aproximar-se do outro, sair de si mesmo. Se quisermos ser, estando realmente vivos, temos de sair de nós mesmos ou acolher o mundo em nós, acolher o outro em nós. O amor é a mesma coisa. É ir em direção ao outro ou acolher o outro em si, tornar-se o outro. Para mim, não somente há uma identificação entre conhecimento e amor, mas, também, a identificação entre o conhecimento, o amor e a existência, a mais intensa e viva.
martes, 7 de septiembre de 2010
Vasos
Quando eu era pequena, costumava ganhar de um amigo israelita do meu pai - chamávamos carinhosamente de vovô Gornat - réplicas de vasos encontrados em sítios arqueológicos. Eram réplicas em miniaturas, que tínhamos que montar. Juntávamo-nos em torno daquele ideal. Montávamos o vaso, que era belo apesar das rachaduras e das pecinhas que faltavam (faltavam também no vaso do sítio arqueológico).
Um era mais belo do que o outro. Eu tinha preferência por um que era magro e alto, um vaso de azeite, dizia o folheto que vinha na caixa. Tinha até um pedestal para colocá-lo. Mas a verdade é que cada vaso finalizado era uma glória, mas terminado ele, esperávamos o outro. Acredito que o vaso de azeite foi o último que chegou, ou penúltimo, e depois dele nem me interessei tanto por outros.
O fato é que montar aqueles quebra-cabeças históricos seria maravilhoso até hoje, para qualquer pessoa. Mas eles terminaram, foram finitos, extraíamos dele toda sua diversão em tardes de pequenas arqueólogas, e esperávamos pelo próximo que vovô Gornat mandaria, junto com algum outro presente bonito. Presentes bonitos havia, mas os mais esperados eram os vasos, já que só viravam objetos através do nosso esforço, dedicação.
Acabou a coleção, só restou a lembrança. Todos os vasos montadinhos ficaram de caixa em caixa, de mudança em mudança, até que os doei todos para um professor de historia, e sabe Deus que fim levaram os mini tesouros arqueológicos da Terra Santa. Até o de azeite eu doei. Quis ficar com ele, mas por quê? Doei, doei.
martes, 9 de febrero de 2010
Gioconda e o apocalipse de 2012

Começou a conversar cá galera da fila. Conheceu uma fulana, que disse que esse negócio de apocalipse veio mesmo a calhar, que a vida dela estava muito ruim. Gioconda argumentou que não achava não. Achava que uma morte assim, vinda do nada, não tinha nada a ver. Ainda mais em massa. Uma pessoa cheia de planos, vem uma pedra e mata. Não. Ia reivindicar.
Chegou pra São Pedro, já de bocão. Estavam todos na fila sendo encaminhados para uma grande área, onde Deus, o Todo-Poderoso, iria explicar os motivos do apocalipse. Gioconda pensou “ta na Bíblia não, brow?”. Mas não era bem isso que Deus queria explicar.
Deus explicou a todos, com aquele olhar de Monalisa (alguns chamam Gioconda) que ele tem, onipresente nos olhos de todos, que o apocalipse ou a mudança súbita acontecia todo dia. Gioconda pensou que ela tinha um mestrado inacabado, uma pintura planejada para sua casa e um encontro amoroso na noite da chuva de pedras. E Deus disse que essas mudanças súbitas aconteciam sempre. A gente é que não notava, porque não vinham tão espetaculares como Ele planejou a Dele. Mas que agora estavam todos na presença Dele, e que não temessem a mudança.
E Gioconda não levou muito bem a conversa de Deus. Mas com o tempo, ela viu que ele tinha razão. A nova vida que ela levava era diferente, mas legal, também. E mudanças vinham, mas depois de ser levada subitamente da terra por uma pedrada, Gioconda sabia que os momentos tinham que ser vividos ao máximo. Que as mudanças não substituíam tempos outros, mas eram especiais nas diferenças que traziam.
miércoles, 20 de enero de 2010
Zero onze, quatorze, zero meia.
Tirar a mancha sem esfregar, aguar o jardim em jatos giratórios.
Lavar o carro com o mínimo de água, gastando uma fortuna no aparelho.
Jóias raríssimas e exclusivas, vendidas a granel, na TV e na revista.
Você tem 36 funções entre ralar, descascar, desengomar – alimentos e roupas – na sua cozinha. Na área de serviço. Na sala de estar. Na varanda. Até mesmo no banheiro, os aparelhos entram, porque são desmontáveis, alças de borracha, anti-aderente, anti-fungico, anti-derrapante.
E você compra, compra, compra, divide em 25 parcelas, só queria um body-lifting, que redistribui a gordura que você não perdeu com o AB STRETCH, ou com o ab-shaper, mas recebeu 4 maiôs em fibra de resina hiperdurável e lavável.
E toma seu suco sem sementes, e vibra na cadeira que emagrece, e tenta emagrecer, porque, sinceramente...
Sua casa não tem mais espaço para você, que está gordo, de tanto ver polishop, comprar, comprar, e não trabalhar para ver resultado.
martes, 22 de septiembre de 2009
Paixão até que a morte - dela - os separe
Vai dar namoro ?
O número noveee, Roberval! Vem pra cá, Roberval.
- a platéia delira –
Devo ta muito bonito mesmo.
Tudo bom, Roberval?
Tudo, Marrcio!
Onde você mora? Taboão da Serra, Márrcio. E trabalha em quê? Sou auxiliarr de telemarketing, aqui no centro. E vem todo dia pra trabalhar? Venho, Márrcio. Uhm, dá uma viradinha, viradinha, viram meninas? Gostaram do Roberval?
- silencio, risadinhas.
Então, Roberval, vamos ver com o cupido eletrônico, ele decide ou elas escolhem?
- cupido eletrônico diz que elas escolhem.
E ai, Nayara, vai dar uma chance pro Roberval?
Hoje não, Márcio.
E aí, Jeanne, gostou do Roberval?
Ele mora onde?
Não é possível, essas mulheres são burra? Eu já falei, Taboão da Serra!
Taboão da Serra, Jeanne!
Muito longe, Márrcio!
E hoje não, Márrcio foi o que Roberval mais ouviu. Até chegar à mais feia. Não a última, que ela era até ajeitadinha. A mais feia. A Janette.
Janette, quer ir conversar com o Roberval?
Quero! – vermelhinha.
Ah, meoool!!! Logo ela?
Sorriso amarelo, Roberval e Janete na lanchonete.
Hihi, eu moro em Itaim Bibi, Roberval.
Aham
Você mora em Taboão da Serra, né?
¬¬
Quais as suas qualidades, Roberval?
Sou um cara bacana, trabalharorr, sincero...
Ih, você é sincero? Márrciooo!!! Me tira daqui!
Que foi, Janete? O Roberval mora muito longe?
Não, Márrcio, ele é sincero. Sinceridade não é qualidade. Manda ele pro toco.
E você é feia!!!
E Janete voltou para Itaim Bibi com toda a pose.
E Roberval, com aquela aura de filho-da-puta.
E nem ele nem ela arrumaram namorado. Só seus 15 minutos de fama, deixando os espectadores do melhor do Brasil pensando que aquele programa é infinito, quando você acha que já viu de tudo, vem a verdade:
mais uma feia sai sem ninguém e sinceridade fere.
martes, 15 de septiembre de 2009
A dor de cada um
Já a mãe do menino, essa sofria porque era infeliz no emprego. Não podia largá-lo, porque seria difícil encontrar outro. E, não era uma sociedade de utopias, mesmo que encontrasse, seria difícil que fosse melhor do que o que ela tinha. E tinha mais duas bocas para sustentar. E daquela situação ela não saia.
A irmã do menino, de 16 anos, essa sofria por uma paixão. Sofria com sinceridade, e chorava, melancólica pelos cantos. Alguns diziam que sofria em demasia, porque o rapaz não prestava. Mas ela o amava e ele não a correspondia. Alguns diziam “tem coisa pior no mundo, menina”, mas ela sofria o sofrimento dela, na intensidade que oscilava no dia a dia, maior, menor ou igual.
Já o pai, esse poderia chorar porque estava doente. E sabia que iria deixar de ver a família, dali a algum tempo. E não havia avisado a ninguém, porque cada um tinha as suas tristezas. Ele podia dizer que a sua tristeza, a da morte, era superior à amargura amorosa, à frustração profissional, ou ainda à falta prática da diversão da bola do caçula. Mas ele sabia que cada um tinha a sua aflição, e que essa não se mede em quantidade. Não adianta dizer que a tristeza de seu caçula era menor que a sua. Cada um tem a sua dor, lida com ela da forma que dá.
E o pai tirou mais essa lição, daqueles dias terminais. Sentiriam falta dele. Mas também sentiriam falta da bola, do emprego, do namorado. Questões que permeavam a vida de cada um com muito mais proximidade do que ele próprio, que apenas observava aquelas dores, pensando, sem dor, na sua própria.
domingo, 6 de septiembre de 2009
Bolo de noivos
Acontece que na última sexta, o bolo de um casamento foi paradoxal ao tradicionalismo. Um tradicionalismo no meio da modernidade. Ainda bem. Certos tradicionalismos não deveriam perdurar.
A babá de um dos noivos fez outro bolo, que acompanhasse o bolo de noiva da festa. Aliás, não havia noiva, na festa. Só noivos. Dois. De branco. E pétalas de rosa, fogos, entrada com as mães em marcha nupcial. E um beijo, um discurso, e emoção. A diferença eram os noivos, dois. Fora isso, nada de mais. Ou tudo de mais, como queriam eles. E certos estão. Celebrar sua união em um lindo casamento, pioneiros, dando visibilidade ao amor, igual a qualquer outro. Um amor do tipo tradicional, que infelizmente ainda é visto como muito moderno por religiões ou preconceitos.
A antiga babá de um dos noivos fez um bolo diferente para esse casamento não tradicional. Que venham mais bolos de casamentos entre homossexuais e que o diferente vire tradição. Parabéns aos noivos (:
http://jc.uol.com.br/canal/lazer-e-turismo/noticia/2009/09/04/turibio-e-zezinho-o-sim-mais-comentado-da-decada-no-recife-198680.php
jueves, 20 de agosto de 2009
Gioconda, o polvo de dois tentáculos
A Gioconda não estava muito feliz, a não ser pela meleca do nariz, pelo livro e pelos cachorros-marinhos. Acenar olá e adeus pareciam coisas muito diferentes para se fazer ao mesmo tempo. Ela conhecia muita gente, agora, e apertava a mão de todos, mas não conseguia usar dois tentáculos para abraçar, achando que usar dois para fazer uma coisa é desperdício, quando um só já resolve um problema.
Daí passou um barco. A turbina arrancou seis dos oito tentáculos da Gioconda-do-mar. Gioconda ficou só com o tentáculo do livro e o da meleca. Foi-se tudo embora. Os conhecidos, aterrorizados pelo tentáculo amputado; os adeus e os olas; até os cachorros-marinhos saíram em disparada.
Mas como aquilo não era real, era só um sonho, Gioconda resolveu que, tendo um tentáculo para tirar a meleca do nariz, assoá-lo, e pentear seus cabelos de polvo, estava bem. E a mão do livro, ela poderia usar para dizer adeus e olá, cada um a seu tempo, cada um com seu cuidado.
A Gioconda acordou e viu que ela tinha, mesmo, duas mãos para fazer o que era preciso. E desejou ter apenas dois braços, para fazer uma coisa de cada vez. E foi com eles que ela abraçou o seu cachorro, que nunca fugiu dela. Só do banho, depois do passeio matinal.
jueves, 30 de julio de 2009
A porta da Frente
A espera, ela encostada, o sorriso recíproco. Tudo isso já se foi.
Agora o que lhes espera é a casa.
Talvez o cão.
O cão sentirá falta dela, talvez mais do que você.
Mas você sentirá falta do sorriso e da espera na porta
Do abraço, da comida e da casa,
Dos cheiros e do sofá.
Sentirá falta dos domingos partilhados, dos dias de semana
Sentirá.
Falta da porta e do sorriso, abertos,
Ao abrir a própria porta, com a própria chave
E bater apenas à sua porta.
domingo, 19 de julio de 2009
Souvenir cotidiano
Mas o momento congelado e bom ficou. E ele poderia ser retomado com muitos que ficaram pelos meus caminhos. Com novas óticas, novas coisas. Eles provavelmente não serão retomados, porém. Agradeço os antigos, sua contribuição para a minha vida. Lembro-me deles com carinho, de nossos momentos. Gostaria de ter escrito em outros 20 de junho e dizer a eles nesse dia quanto os amava. Mas eu devo ter dito, em outros dias de junho, de agosto, de abril. No natal, nos aniversários. Em dias de semana, de aula, de chatice. Fico feliz por não ter deixado de amá-los, e de dizer, e de demonstrar. O momento passado e vivido foi o importante.
Então, vivendo o hoje, eu agradeço pelos amigos cercanos, os amigos cotidianos. Os meus amigos atuais. Pelo que eles me dão e pelo que me deixam dar. Digo, porém, que não deveria haver data de amizade. De redenção, de reviravolta para ela. "Natal da amizade". Não. A amizade tem que ser conquistada a cada dia, vivida, relembrada, curtida, elaborada. Amizade não tem data comemorativa no varejo, não tem presentão. Ela é feita de presentinhos e lembrancinhas. De souvenirs, que em francês são lembranças e em português, lembrancinhas. É nesses souvenirs que a amizade se constrói.
Esse texto é um souvenir para agradecer a amizade de quem sabe e lerá.
Obrigada por estar na minha memória, mesmo que as coisas mudem, vocês ficam.
Porque souvenir a gente guarda com carinho, que são lembranças de lugares e tempos felizes. E vocês são tempos felizes.
Nina.
viernes, 26 de junio de 2009
Aliene
Com a dança, com a comida, com a conversa
Aline conversa para me resolver
Aline dança para me reanimar.
Aline me embala
No baile,
Bailando
Até eu parar de chorar.
(para Aline)
sábado, 6 de junio de 2009
Vermelho na xícara
E daí a menina sentiu o perfume, porque até agora não havia respirado. Prendia a respiração como em um filme de suspense dos bons. E sentiu o cheiro de morango, e sorriu. Perguntou se era chá de bala. A mãe respondeu que a bala estava na geladeira. Não havia prestado atenção na pergunta da menina. Ela pediu um chá de bala para ela. A mãe, que tomava o chá sem prestar atenção em nada, disse que buscasse na geladeira a bala.
E a menininha foi buscar a xícara para fazer chá de bala. Pegou o resto de água quente, juntou açúcar, e foi pegar aquelas balas em sachês, os chás. E colocou um sachê dentro da xícara e observou a fumaça que saia, sentiu dessa vez o cheiro, e viu as cores pintando a água. Dessa vez ela descobriu que havia coisa melhor do que bala dentro da despensa, e abriu os seus sentidos para mais uma descoberta da mais tenra idade, feita por ela para ela mesma.
miércoles, 3 de junio de 2009
Mergulho
Seus amigos chegaram e estavam muito excitados. Com o mergulho, a praia, o sol e o céu. Começaram a vestir a roupa, falar sobre os corais, as scubas e os peixes, quando a Gioconda disse “e os tubarões?”
E os amigos a olharam, com tanto medo: “tubarões?” eles disseram.
E a Gioconda disse “é possibilidade. São tubarões pequenos, não fazem mal a ninguém”.
E a Suzaninha começou a passar mal. A ter náusea, ficar branca, e dizer que não ia mais. Também o namorado da Suzaninha, desistiu por dizer que com tubarão, nem ele nem Suzi iriam, não iriam aos corais!
E até mesmo o Coragem não quis ir. Coragem disse que se havia possibilidade de tubarão, não valia ir e se arriscar. Ele não tinha nem como se defender com seu arpão, que deixara em casa, junto com o remédio de pressão, que começava a subir, depois que a Gioconda disse “a falta de coragem de vocês não me impede de ir.”
E a Gioconda se montou. Sabia que o tubarão não poderia ser tão mal, e que o que ela mergulharia para ver seria compensador.
Desceu pela corda, olhou com calma o fundo do mar, os peixes, viu um tubarão. Ele passou por longe, seu coração bateu mais forte... mas a Gioconda mergulhou, por muito tempo, junto com ele, que curtiu ao seu lado a paisagem submarina. O tubarão era apenas uma possibilidade. E ele esteve ali, mas não era tão ruim. E a Gioconda não perdeu de ver o resto, por causa da possibilidade do perigo.
Gioconda subiu à superfície, olhou para seus amigos, que comiam camarão e tomavam sol, esperando por notícias delas.
“E o tubarão?”
“Ele apareceu.”
“Você teve medo?”
“Tive. Mas valeu.”
domingo, 31 de mayo de 2009
Poema soro caseiro
Achou que o soro iria melhorar o seu astral
Botou uma colher de açúcar e uma de sal
Num copo cheio de água
Para tentar curar as suas mágoas.
Bebeu, mas não se satisfez
A pressão não voltou logo de vez
Então ele foi ao hospital, de quem era freguês
Chegou ao médico, pediu para ser examinado.
Coitado:
O que tinha não era desidratação
Era uma vida sem emoção.
Tratado com soro caseiro, o médico lhe deu um placebo
Mandou-o para casa, com o seguinte conselho:
- Não tome mais o soro caseiro
Coma feijão tropeiro
Que tem muito ferro e vitamina
E vá procurar ver meninos e meninas
Que alimentem você e seu corpo inteiro, - se você os encontrar, pensou salutar -
Homem soro-caseiro.
viernes, 27 de marzo de 2009
Sobre a casa do Canarinho
Mas o que eu acho singular nas histórias, é de como pequenas coisas, tão simples, rendiam uma história. Uma que me assombrou nos últimos dias, foi a da janela. Sim, janelas não eram algo que se comprava ali, no mercado a preço de banana. Eram caras. Laura conta que o seu Pa trouxe um embrulho (sempre trazia embrulhos, que eram sempre surpresas), e nesse estavam quatro pedaços de vidro, que ele encaixou em uma das paredes. Laura pode ficar olhando a neve que caía, se sentindo quente dentro de casa, mas com um pedacinho do mundo de fora nos seus olhos.
Laura ficou fascinada com o vidro e seu poder de transparência e proteção. Foi um dia especial para ela, que ficou na janela durante muito tempo, olhando a neve e escutando seu ritmo, pensando na vida. Surpresas pequeninas, trazidas em papel, da venda, na neve, no frio, que aqueciam o lar.
Muito bom para fazer uma criança dormir.
domingo, 15 de marzo de 2009
Eletricidade em prazer, prazer em sentimento

Hoje estava no sofá, recebendo carinhos no rosto. Carinhos que fazem o olho revirar de prazer, melhores que muitos carinhos que uma pessoa possa receber. Cafunés e arranhões leves, desses que botam você para dormir.
E então pensei que esses prazeres deveriam continuar depois da morte. Que os anjos deviam se acariciar, não só pelas boas ações, que inundam o corpo de prazer, mas essas pequenas torneirinhas somáticas, os carinhos.
Então filosofei que a alma deveria estar contida, não como pensavam os antigos, no coração, mas nos nervos. No sistema nervoso. Ele interpreta os sinais de amor e de dor, o olhar e o tapa, o cafuné e o sorriso. E por ele nós interpretamos as ações de fora, transformando carinhos em amor, sorrisos em sorrisos, olhares em abraços, tudo isso em sentimento.
Os anjos têm de ter sistema nervoso.
Têm de ter unhas não roídas para melhores cafunés.
Precisam de nuvens fofinhas, para gigantes rodas de carinho, conversa à toa e massagem para pés que nem tocam o chão, mas tocam as mãos que os acariciam.