O hipocondríaco passava mal
Achou que o soro iria melhorar o seu astral
Botou uma colher de açúcar e uma de sal
Num copo cheio de água
Para tentar curar as suas mágoas.
Bebeu, mas não se satisfez
A pressão não voltou logo de vez
Então ele foi ao hospital, de quem era freguês
Chegou ao médico, pediu para ser examinado.
Coitado:
O que tinha não era desidratação
Era uma vida sem emoção.
Tratado com soro caseiro, o médico lhe deu um placebo
Mandou-o para casa, com o seguinte conselho:
- Não tome mais o soro caseiro
Coma feijão tropeiro
Que tem muito ferro e vitamina
E vá procurar ver meninos e meninas
Que alimentem você e seu corpo inteiro, - se você os encontrar, pensou salutar -
Homem soro-caseiro.
domingo, 31 de mayo de 2009
viernes, 27 de marzo de 2009
Sobre a casa do Canarinho
Quando era pequena, minha mãe lia para mim as histórias de Laura Ingalls. Eram histórias cotidianas, que dentro do dia-a-dia tinham sua dose de magia. Laura era uma menina que vivia se mudando com os seus pais, oeste adentro, nos EUA de 1800’. Ela teve várias casas, sempre construídas de madeira. Sempre imaginava as casas e como deveria ser viver dentro delas, no frio que fazia lá.
Mas o que eu acho singular nas histórias, é de como pequenas coisas, tão simples, rendiam uma história. Uma que me assombrou nos últimos dias, foi a da janela. Sim, janelas não eram algo que se comprava ali, no mercado a preço de banana. Eram caras. Laura conta que o seu Pa trouxe um embrulho (sempre trazia embrulhos, que eram sempre surpresas), e nesse estavam quatro pedaços de vidro, que ele encaixou em uma das paredes. Laura pode ficar olhando a neve que caía, se sentindo quente dentro de casa, mas com um pedacinho do mundo de fora nos seus olhos.
Laura ficou fascinada com o vidro e seu poder de transparência e proteção. Foi um dia especial para ela, que ficou na janela durante muito tempo, olhando a neve e escutando seu ritmo, pensando na vida. Surpresas pequeninas, trazidas em papel, da venda, na neve, no frio, que aqueciam o lar.
Muito bom para fazer uma criança dormir.
Mas o que eu acho singular nas histórias, é de como pequenas coisas, tão simples, rendiam uma história. Uma que me assombrou nos últimos dias, foi a da janela. Sim, janelas não eram algo que se comprava ali, no mercado a preço de banana. Eram caras. Laura conta que o seu Pa trouxe um embrulho (sempre trazia embrulhos, que eram sempre surpresas), e nesse estavam quatro pedaços de vidro, que ele encaixou em uma das paredes. Laura pode ficar olhando a neve que caía, se sentindo quente dentro de casa, mas com um pedacinho do mundo de fora nos seus olhos.
Laura ficou fascinada com o vidro e seu poder de transparência e proteção. Foi um dia especial para ela, que ficou na janela durante muito tempo, olhando a neve e escutando seu ritmo, pensando na vida. Surpresas pequeninas, trazidas em papel, da venda, na neve, no frio, que aqueciam o lar.
Muito bom para fazer uma criança dormir.
domingo, 15 de marzo de 2009
Eletricidade em prazer, prazer em sentimento

Hoje estava no sofá, recebendo carinhos no rosto. Carinhos que fazem o olho revirar de prazer, melhores que muitos carinhos que uma pessoa possa receber. Cafunés e arranhões leves, desses que botam você para dormir.
E então pensei que esses prazeres deveriam continuar depois da morte. Que os anjos deviam se acariciar, não só pelas boas ações, que inundam o corpo de prazer, mas essas pequenas torneirinhas somáticas, os carinhos.
Então filosofei que a alma deveria estar contida, não como pensavam os antigos, no coração, mas nos nervos. No sistema nervoso. Ele interpreta os sinais de amor e de dor, o olhar e o tapa, o cafuné e o sorriso. E por ele nós interpretamos as ações de fora, transformando carinhos em amor, sorrisos em sorrisos, olhares em abraços, tudo isso em sentimento.
Os anjos têm de ter sistema nervoso.
Têm de ter unhas não roídas para melhores cafunés.
Precisam de nuvens fofinhas, para gigantes rodas de carinho, conversa à toa e massagem para pés que nem tocam o chão, mas tocam as mãos que os acariciam.
domingo, 1 de marzo de 2009
Também sobre o livre arbítrio.
Alexandra era uma empregada doméstica. Uma mulher de caráter, boa mesmo. Como dizia seu nome, ajudava os homens. Inclusive seu marido, um bêbado, que batia nela, uma vez por semana, religiosamente. Inclusive seu patrão, que tirava dela qualquer copo quebrado. Inclusive os que cegou durante meia hora, por meio trocado, em sua juventude. Inclusive ao pastor da igreja, a quem dava dez por cento do salário bruto, sem o desconto dos copos.
O único homem que ela gostava de ajudar era o bebê do patrão. Aquele recebia ajuda e ao menos dava risadas em troca.
Mas naquele dia, nem o bebê a prendia. Alexandra tinha muita ajuda dada, pouca recebida. Muita dela tirada. Da ajuda e da Alexandra. Então ela, limpando a varanda, olhou para fora. Viu aquela calçada bonita. Era de manhã, cedo. Ela tinha que levantar cedo para trabalhar. Porém, naquele dia estava com muito sono. Muito cansaço. Exaustão de anos. O único que dormia era o bebê do patrão. Ela não podia deitar em canto algum, que não o chão frio. Então pensou em deitar no parapeito da varanda. Não fazia em inocência.
Ela se deitou. E olhou o céu. E se lembrou de Deus. Talvez, além do bebê, o único que dava alguma recompensa a ela. Quando ela morresse. Não que ela tivesse raiva Dele, mas a sua vida não era fácil: era difícil. E Alexandra queria conhecer Deus. Já não acreditava que pecado maior era tirar a vida que a ela foi concedida, já que com a vida foi dado o livre arbítrio. E pensava nisso enquanto via a lua, que nascia com o sol. Pensava que as coisas conseguiam conviver bem juntas, mas ela não conseguia, com o mundo.
Pensou que talvez o bebê sentisse falta dela, mas que ele poderia ter outra babá. Ela sentiria mais falta dele, muito mais falta do que qualquer outro homem de sua vida. Os outros, aliás, só dariam pela sua falta na necessidade: do dízimo, do lucro no salário, do gozo ou do saco de pancadas. Então ela resolveu dormir. Deixou-se estar ali, como uma equilibrista em uma corda bamba. Estava suportada apenas por aquela linha de concreto, entre a vida com, no máximo, uma pancada forte, coisa pouca para quem já viveu tantas; e a morte, que parecia muito melhor que a vida.
E dormiu. E dormiu muito bem. Embalada pela brisa, que não sentia há muito, do barraco onde morava. Quase tão bem quanto em seu próprio colchão. E acordou em um sonho, com um homem diferente afagando seus cabelos, sem pedir nada em troca.
* Não há melhor modo de auto-crítica que a ausência da crítica alheia.
O único homem que ela gostava de ajudar era o bebê do patrão. Aquele recebia ajuda e ao menos dava risadas em troca.
Mas naquele dia, nem o bebê a prendia. Alexandra tinha muita ajuda dada, pouca recebida. Muita dela tirada. Da ajuda e da Alexandra. Então ela, limpando a varanda, olhou para fora. Viu aquela calçada bonita. Era de manhã, cedo. Ela tinha que levantar cedo para trabalhar. Porém, naquele dia estava com muito sono. Muito cansaço. Exaustão de anos. O único que dormia era o bebê do patrão. Ela não podia deitar em canto algum, que não o chão frio. Então pensou em deitar no parapeito da varanda. Não fazia em inocência.
Ela se deitou. E olhou o céu. E se lembrou de Deus. Talvez, além do bebê, o único que dava alguma recompensa a ela. Quando ela morresse. Não que ela tivesse raiva Dele, mas a sua vida não era fácil: era difícil. E Alexandra queria conhecer Deus. Já não acreditava que pecado maior era tirar a vida que a ela foi concedida, já que com a vida foi dado o livre arbítrio. E pensava nisso enquanto via a lua, que nascia com o sol. Pensava que as coisas conseguiam conviver bem juntas, mas ela não conseguia, com o mundo.
Pensou que talvez o bebê sentisse falta dela, mas que ele poderia ter outra babá. Ela sentiria mais falta dele, muito mais falta do que qualquer outro homem de sua vida. Os outros, aliás, só dariam pela sua falta na necessidade: do dízimo, do lucro no salário, do gozo ou do saco de pancadas. Então ela resolveu dormir. Deixou-se estar ali, como uma equilibrista em uma corda bamba. Estava suportada apenas por aquela linha de concreto, entre a vida com, no máximo, uma pancada forte, coisa pouca para quem já viveu tantas; e a morte, que parecia muito melhor que a vida.
E dormiu. E dormiu muito bem. Embalada pela brisa, que não sentia há muito, do barraco onde morava. Quase tão bem quanto em seu próprio colchão. E acordou em um sonho, com um homem diferente afagando seus cabelos, sem pedir nada em troca.
* Não há melhor modo de auto-crítica que a ausência da crítica alheia.
jueves, 19 de febrero de 2009
Rugas
Eu me pergunto se as rugas são más. Vejam, rugas são cicatrizes de expressões. Digamos, em um eufemismo, “sinais de expressão”. E são. Normalmente, quem mais faz careta é quem mais tem rugas. Ou quem ri muito, fica com aquela no canto da boca. E se a pessoa ri e aperta os olhos, de tanta alegria, fica com pés de galinha.Pé de galinha, considerado horroroso, a-ca-ba com o olhar.
Por quê?
Rugas são como um documento da expressividade do ser humano ao longo de sua vida. Feias são as da testa, que são carrancudas.
Mas pés de galinha e aquela do sorriso, que quando vejo pessoas com ela, me lembro de cachorros simpáticos, por que, feias?
Temos que parar com isso. Assumir as rugas felizes, e continuar construindo elas, através dos sorrisos.
Li uma vez que havia mulheres que não tinham rugas. Não tinham porque não podiam rir ou sorrir muito. Era uma cara de paisagem, um dia atrás do outro. Então, quando olham para o espelho, não têm do que se lembrar.
Lembrei agora do sargento Tainha, do recruta Zero. Ele não sabia sorrir. Não conseguia forçar os músculos da face. Ele só tinha rugas carrancudas.
Isso sim é feio.
(ao lado, Sargento Tainha, exercitando seu sorriso)
lunes, 9 de febrero de 2009
O beijo que enfeita a rua

Essa é uma foto de um fotógrafo francês chamado Robert Doisneau. Ele é bem famoso e tem fotos muito bonitas e simples, mas essa deve ser a mais famosa. Chama “O Beijo No Hotel De Ville”. Veja como tudo é banal, diante do beijo do casal. De como ele se destaca no meio da multidão e do trânsito que corre, desatento ao afeto que atrapalha a sua caminhada na calçada ou na rua. Também observe como os amantes não se importam com o trânsito, com o frio, com os transeuntes, com a diferença de altura. Nada nessa foto é mais importante do que esse beijo, nem o café, de onde a foto foi tirada; nem os carros, que vêm e vão; nem mesmo o hotel- no título da foto - que é apenas uma paisagem ao fundo. O que importa mesmo é o flagrante do beijo em um dia qualquer, no meio da rua movimentada, de pessoas inexpressivas, cuidando de suas vidas, alheias ao amor que interrompe o fluxo da rua. Importa mesmo isso, a paixão nos lábios do homem e a perplexidade feliz, que dá para se perceber nas mãos e no pescoço da mulher, que está se esticando para poder beijar melhor.
domingo, 8 de febrero de 2009
Maravilhas da minha casa, na infância
Quando eu era menor, eu achava muitas coisas fascinantes. Por exemplo, eu gostava de ver o cordão umbilical dos peixes. Depois, passei a notar que eles ficavam maiores em peixas barrigudas, as peixas grávidas, e achava que era um cordão umbilical dos peixinhos no útero da mãe, que queriam fazer contato com o aquário. E ali eu passava tempos, na minha vã filosofia, até que eu falei com algum adulto de me disseram “é cocô, Nina.”
Desilusão.
Outra coisa que também me fascinava eram as fadas, que ficavam visíveis no raio de sol, que entrava, de tarde, pela janela do quarto da minha mãe. Eram muitas, branquinhas, com asas simétricas, voando graciosamente em torno de mim. Sendo mostradas pela luz que entrava, como uma projeção de cinema no chão do quarto. Às vezes eu parava o dever de casa para olhar aquilo ali, aquela dança de fadas, até que um dia me disseram ou- sei lá - conclui, que era apenas poeira.
Mais uma desilusão.
É incrível como as coisas podem não ser o que parecem, ser mais bonitas, se você olhar para elas de um jeito inocente.
Desilusão.
Outra coisa que também me fascinava eram as fadas, que ficavam visíveis no raio de sol, que entrava, de tarde, pela janela do quarto da minha mãe. Eram muitas, branquinhas, com asas simétricas, voando graciosamente em torno de mim. Sendo mostradas pela luz que entrava, como uma projeção de cinema no chão do quarto. Às vezes eu parava o dever de casa para olhar aquilo ali, aquela dança de fadas, até que um dia me disseram ou- sei lá - conclui, que era apenas poeira.
Mais uma desilusão.
É incrível como as coisas podem não ser o que parecem, ser mais bonitas, se você olhar para elas de um jeito inocente.
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